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O ruído do tempo – Julian Barnes

É pouco provável que o stalinismo, assim como o holocausto, cesse de produzir cultura, o que é irônico, uma vez que a cultura – agora em seu sentido artístico – foi sistematicamente cerceada em todos os regimes totalitários, de exceção etc. Se Stalin perseguiu todos os formalistas de sua época (e formalismo abrangia quase tudo, numa época de efervescência estética das vanguardas, em que se experimentava tanto as formas, em que um Stravinski já havia lançado a sua incontornável "A sagração da primavera", em que qualquer personalismo estético era considerado subversivo), ou seja, todo e qualquer criador que tivesse um estilo definido, que fosse além da reportagem das coisas, que fosse um esteta, digamos, hoje o ditador é perseguido por estilistas de todo gênero artístico, e em geral com brilhantismo. Porque, mal sabia o suicidador-mor soviético, mas ele vinha se construindo como um dos mais complexos e ricos (ou seja, inspiradores) personagens da história do século XX, um presente dos anjos caídos a todo e qualquer artista com um mínimo de talento.

O premiado escritor Julian Barnes, autor de, entre outros, "O papagaio de Flaubert" e "O sentido de um fim" (vencedor do Man Booker Prize de 2011), um dos integrantes de uma rica geração de escritores e pensadores ingleses que orbitavam em torno da Vanity Fair (ao lado de Martin Amis, Ian McEwan, do falecido e polêmico ensaísta Christopher Hitchens, de um ainda incipiente Salman Rushdie, dentre outros), acaba de publicar um romance que incomodaria bastante o líder russo: a escrita de Barnes é cheia de estilo, mas, o que importa muito, despida de maneirismos, uma vez que o autor é formado por uma "escola" que professa a concisão e a elegância – cinicamente bem humorada - que vem lá de Swift, um de seus tantos ilustres conterrâneos. A história que ele conta em O ruído do tempo funciona como um libelo – mais um – contra o patrulhamento político sobre a arte e os artistas, que, aliás, existe até hoje em algumas "repúblicas" mundo afora, notadamente na América Latina – é interessante notar, em um exemplo menos divulgado, a obra de um René Depestre, nascido no Haiti, autor de um romance dos mais combativos contra a ditadura de seu país, chamado "O Pau-de-Sebo": o livro é uma alegoria cheia de escracho, e se acha completamente fora dos ditames de uma arte realista militante.

O novo romance de Barnes tenta – e consegue – nos informar acerca da vida conturbada e da personalidade bartlebyana do maior compositor russo da segunda metade do século XX, o confuso e confundido Dimitri Shostakovich, autor de controversa sinfonia, concertos, valsas e uma ópera classificada pela polícia política do regime de seu país como "caos em vez de música" – o gênio russo, no entanto, ficou para a posteridade ignorante por causa de uma valsinha tocada até pelo André Rieu em seus espetáculos pouco ortodoxos e extremamente cafonas. Barnes parte de uma situação a um só tempo trágica e política para, como na forma sonata, circundar o tema, com direito à coda e final pianíssimo. A situação, em que a vítima é o protagonista, representando outros tantos artistas que viveram no mesmo lugar e no mesmo tempo, é a seguinte:

"E então ele começou a fazer vigília na frente do elevador. Não era o único. Outros pela cidade faziam o mesmo, querendo poupar aqueles que amavam o espetáculo da prisão. Toda a noite seguia a mesma rotina: esvaziava os intestinos, beijava a filha adormecida, beijava a esposa acordada, pegava a pequena valise das mãos dela e fechava a porta da frente de casa. Quase como se fosse um plantão noturno. De certa forma, era o que estava fazendo. E então esperava, pensava no passado, temia o futuro, fumava no breve presente".

Enquanto os expurgos de Moscou iam acontecendo – o Rubachov de Koestler já se achava em uma torturante solitária –, Shostakovich, com sua natureza distímica, foi convidado a ter "três conversas com o Poder", em 1936, 1949 e 1960. Frequentemente questionado por uma "derrapada política" (em verdade estética) aqui, outra acolá, o compositor fingia simpatia ao regime – chegou a compor uma majestosa sinfonia para Stálin – nessas "convenções" pontuais, e prometia se redimir a cada crítica de seu inquiridor – esses "encontros com o Poder" remetem o leitor a outro romance que trata de uma ditadura e seu controle sobre os cidadãos: "O compromisso", da romena ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller. Acontece que a vida pessoal de "Shosta" era um caos em vez de uma valsa, sua relação com as mulheres o atormentava, e seus desejos recônditos o afastavam cada vez mais de uma nostálgica, quase onírica "Estação Finlândia", ao tempo em que nutria imenso gosto pelo camponês de sua terra, pelo homem comum, de modo geral, pobre, trabalhador etc. Enfim, ele era um indivíduo, e, como tal, tinha uma vida privada – o que costuma ser um crime em ditaduras em que o Estado decide o que o cidadão vai comer no almoço. O mais recente romance de Barnes é resultado direto desse dilema, desse conflito vivido por um artista oprimido, patrulhado em sua arte, e patrulhado, supostamente, para o bem do povo (!).

Enquanto a história é narrada, de modo fragmentado e circular, o autor inglês aproveita o fato de seu (anti) herói ser um artista para expor livres apreciações sobre arte, teoria e crítica. É possível encontrar, à página 92, uma explicação para o título do livro, que se alinha ao pensamento estético de Barnes:

"A arte é o sussurro da história, ouvido acima do ruído do tempo (...). E sabia, portanto, que todas as definições verdadeiras de arte são circulares, e todas as definições falsas dão à arte uma função específica".

Sabemos todos quanto elogios de quarta capa se excedem e em verdade são luminosos de uma casa noturna, existem para chamar a atenção mesmo, vender o produto etc. – o "The guardian" afirma, lá, ser O ruído do tempo a obra-prima de Barnes; todos os livros são a obra-prima de fulano, na quarta capa –, mas é perfeitamente possível dizer que o mais novo romance de Barnes é obra premiável, pelo estilo (a linguagem é concisa e dura como certas composições de Prokofiev), pela estrutura (formalista) do romance e pela importância, hoje, que há em se ocupar com um tema que ainda faz eco, fora dos romances, ao que escreveu Arthur Koestler em seu imprescindível "O zero e o infinito", sobre Rubachov e os expurgos de Moscou: o autor húngaro foi um dos primeiros a ficcionalizar a história de uma esquerda que pegou um rumo à direita até mesmo de Kruschev.

A realidade é uma sinfonia caótica.

 

Livro: O ruído do tempo

Autor: Julian Barnes

Editora: Rocco

Número de páginas: 175

Preço: 34 reais e 90 centavos

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