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Rio-Paris-Rio

É possível que a melhor prosa de ficção feita no Brasil, hoje, venha da caneta das mulheres. Mulheres como Cintia Moscovitch, Maria Valéria Rezende, Elvira Vigna e outras tantas, mais jovens, como Micheliny Verunschk e Tércia Montenegro – todas reconhecidas por concursos literários, crítica e público. Sem contrariar o caput deste artigo, a premiada autora carioca Luciana Hidalgo acaba de colocar no mercado seu segundo romance, Rio-Paris-Rio, depois de ter sido finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Portugal Telecom, e o Jabuti com o delicioso romance "O Passeador" (Rocco, 2011), uma viagem ao passado do Rio de Janeiro pelas pernas do flaneur Lima Barreto, autor-personagem determinante na obra de Hidalgo, e objeto de estudo que resultou em um ensaio contemplado com um Jabuti (seu segundo; o primeiro chegou com a biografia de Arthur Bispo Do Rosário, Rocco, 1996/2011).

O tempo é outro. Mas nem tanto. Hidalgo aprecia a evasão - qualidade intrínseca à literatura ficcional, desde que não alienante - como forma de fazer paralelos oportunos que corroboram a famosa frase de Marx: "A história se repete como uma farsa". No passado, como se sabe, encontramos frequentemente o futuro, encontramos Nostradamus na figura do tempo, profeta maior, que se serviu às largas da História, seu bedel.

Dois jovens brasileiros - Arthur e Maria - estão em Paris em maio de 1968. Ela estuda Filosofia e mora num quarto em uma daquelas pensões francesas que são pirâmides sociais. Ele é artista de rua, mais exatamente poeta. Ambos filhos de militares que, fugindo da ditadura brasileira, caem de paraquedas na mais icônica das revoluções estudantis do século XX. E entre líderes revolucionários e professores cartesianos, o jovem casal verde e amarelo vai construindo - e sedimentando - a mais ousada dentre todas as lutas, aquela que tem o poder de pacificar até a Faixa de Gaza – quando levada a cabo.

Embora pareça piegas, numa breve descrição, o amor no romance de Hidalgo, única salvação vislumbrada pela autora em um ambiente massacrado por discursos muitas vezes marcados por logomaquias e psitacismos, se impõe de maneira tão consistente que, num paradoxo, se mostra militar, dada a sua autoridade, mas sem perder a ternura jamais. E por outro lado, mostra-se religioso, mas à maneira de um Bernanos, dada a epifania de certas passagens em Rio..., com sua religião política e humanista. Dois trechos do livro mostram ao leitor o inimigo maior, aquele que pode ser visto na famosa frase de Anouilh – “Há o amor, claro. E há a vida, sua inimiga –:

"A Sorbonne é esse maciço feito por séculos de estudos, leituras, ensinamentos que aí permanecem, numa outra frequência, cruzados e confundidos, e ao final... Fracassa".

E:

"Luc continua a conversa, isto é, a retórica. Raramente tem algo original a dizer, mas sempre diz bem, tese-antítese-síntese. Martel é igual. Aprendeu no Liceu: a escrever e falar de maneira articulada, a debater, não importando o que defendem e sim como argumentam".

Esse amor nos é apresentado como um remédio ao fracasso da civilização - ou, por outra, das utopias -, um remédio que vai além da resiliência e instaura um estado de espírito, uma preguiça benfazeja que combate, de forma espontânea, o consumismo, a guerra e outros tantos males do capitalismo, embora não só do capitalismo.

Incomoda um pouco o final aparentemente precipitado, em que a autora distribui destinos aos personagens como costuma acontecer no último capítulo de novelas televisivas. A sensação é a de que a autora ou cansou-se dos personagens e da história – e quer se livrar logo deles –, ou se perdeu em sua trama. Mas é possível ainda que tal expediente tenha sido deliberado e eu, simplesmente, não alcancei o objetivo da obra.

Com uma linguagem despojada e alguns recursos gráficos que remetem o leitor ao grupo de vanguarda francês Oulipo, o novo romance de Luciana Hidalgo chega em ritmo de cinema e parece começar com o Godard de Acossados, e quase termina com o vistoso Os Sonhadores, de Bertolucci. Mas há que chegar ao Brasil, e no final da história sentimos, depois de uma viagem que nos apela para todos os sentidos - isto porque a autora, que morou em Paris por alguns anos, faz excelente reconstituição de época -, que estivemos esse tempo todo não em Paris, mas no Brasil, com uma luneta - substantivo feminino - virada para o Atlântico.

 

Dados sobre o livro:

Rio-Paris-Rio
Luciana Hidalgo
Editora Rocco
160 páginas
24,50 reais

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