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  Henrique Wagner
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Um contista de palavra

Melhores contos – Hélio Pólvora – Global Editora

Ler Hélio Pólvora é manter acesa, mais que ao ler outros autores, a crença absoluta e empedernida na perenidade do texto. É acreditar na palavra, ainda. Em tempos de escatologia do livro e da leitura, Pólvora, criador de imagens sempre originais e consistentes, nos mantém envolvidos o tempo todo em histórias sem concessões ao que chamam pretensiosamente modernidades. Seus contos têm começo, meio e fim, são longos, em geral, e conseguem, ainda hoje, depois de mais de 50 anos de ofício, desde sua brilhante estréia com Os galos da aurora (1958), saudado, sem reservas, pela crítica especializada, conseguem, em tempos de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan constantemente imitados, a proeza de se manter “interessante” e interessado no leitor de hoje. A grande fórmula é a combinação daquela saborosa literatura lida pelos adolescentes mais cultos de outra geração, que liam as aventuras de Stevenson, Jack London e Julio Verne – lidas pelos adultos de hoje, e olhe lá –, à desmistificação da complexidade exigida pela história curta, em geral vista a olhos nus, cujo engenho o contista baiano, nascido em Itabuna no ano de 1928, deixa sempre em seu escritório, poupando o leitor de exibicionismos, em temas que vão do coronelismo baiano e da violência no campo aos hotéis de uma ou outra grande metrópole, passando sempre pelo tempo que envelhece o amor, e tudo escrito com uma técnica tão sedutora que beira o aliciamento, em um erotismo extremamente sofisticado.

Assim é que a literatura brasileira, em toda a sua abrangência (leitores, críticos, contistas, editores), deve saudar a publicação da mais nova antologia de Hélio Pólvora, editada pela Global Editora, com seleção de contos feita por André Seffrin, em minha opinião o mais preparado crítico brasileiro de hoje, digno sucessor do gigante Antonio Candido. Dentro da coleção Melhores Contos, os contos do autor grapiúna, jornalista que passou pela redação dos principais jornais e revistas do Brasil – Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Revista Veja –, e ganhou prêmios disputadíssimos, como o Prêmio Nestlê (duas vezes, em primeiro lugar para contos, em1982 e em 1986), Fundação Castro Maya e Jornal do Commercio (este, recebido pelo já citado Os galos da aurora), podem ser lidos em disposição cronológica, facilitando ao máximo a constatação evidente da evolução de um contista que publica seu primeiro livro já senhor do seu ofício. Mas há sempre que evoluir, ainda que apenas tematicamente. E há que ressaltar a influência, na obra do contista, de seu trabalho como tradutor de importantes autores americanos e ingleses – traduziu alguns franceses também. Mais que o leitor, o tradutor revela em seus contos a influência de mestres da narrativa do século em que houve o boom do conto moderno, tais como Faulkner, Hemingway e Sherwood Anderson, os dois primeiros traduzidos por Pólvora. A seleção feita por Seffrin dificilmente seria melhorada por outro selecionador. A introdução à constística de Pólvora, assinada pelo autor da seleção, é igualmente insuperável, e nela é possível ler, depois de profunda análise de cada conto da antologia, a seguinte afirmação: “contista extraordinário, que alcançou a estrada real da ficção contemporânea ao dispensar ramais e caminhos duvidosos e geralmente trilhados por legião de epígonos (...). Assim se deu com Hélio Pólvora, que criou seu modo de narrar, diferente de todos que conhecemos”.

A coletânea reúne contos publicados a partir do terceiro livro do autor baiano, “Estranhos e Assustados” (1966), e alcança o volume de contos “O rei dos surubins e outros contos” (2000). De “Adamastor” a “O rei dos surubins”, ao longo de quinze peças, estamos diante de uma obra que vai fixando um estilo ousado de contar uma história, uma vez que aposta na tradição, em dias de experimentos gratuitos. Pólvora atualiza a contística ocidental ao visitar os grandes mestres do conto americano, não deixando margem a dúvidas sobre determinadas filiações. Assim é que é possível entrever, aqui e ali, a tragicidade de Flannery O’Connor e a técnica narrativa de Faulkner num dos contos de minha predileção, Massacre no Km 13. E em todos os contos há uma presença tchecoviana, se pensarmos em uma afirmação famosa do contista e dramaturgo russo, a respeito de “A gaivota”: “Bem, terminei a peça. Eu a comecei forte e acabei pianíssimo – contrariamente a todas as regras da arte dramática”. Os contos de Pólvora terminam-se pouco antes do leitor terminá-lo. E que elegância nos fica da história curta apenas no final.

O autor baiano nasceu diante de uma armadilha – grapiúna em uma geração que cultivava o regionalismo de 45 –, mas ao se livrar dessa armadilha é que se fez o grande contista, aquele que escreveu contos “pedagógicos” de tão “corretos”, quase metrificados; aquele que esteve no campo e na cidade, sem, por isso, baixar a cabeça para marcas do tipo “autor regional” e “autor urbano” – seus contos urbanos não se parecem em nada com os contos urbanos de outros autores, uma vez que são, em qualquer lugar do mundo, escritos, claramente, por um grapiúna. Pode-se inferir, portanto, que a grande literatura de Hélio Pólvora é resultado de uma superação. E há que pensar ainda nos grandes fantasmas que ele teve de enfrentar: Jorge Amado, Jorge Medauar (outro grapiúna, vencedor do Jabuti em 1959 – mesmo ano em que Jorge Amado ganha o seu, pelo romance “Gabriela, Cravo e Canela”) e Adonias Filho, para ficarmos com apenas três grandes nomes da literatura baiana de uma geração anterior a sua em poucos anos. Pólvora os enfrentou amistosamente, usando como arma a força do “inimigo”, refazendo uma literatura baiana já riquíssima, mas agora com toques de William Faulkner, Ernest Hemingway, Graciliano Ramos (pela exatidão da palavra, pela escolha certeira de um vocábulo) e o Hélio Pólvora de Itabuna, leitor de Stevenson, vivido em redações de grandes jornais, tradutor de autores de definida importância para a consolidação do conto e da prosa moderna no ocidente, leitor e admirador da concisão cheia de matizes de um Tchecov.

Entre o “falatório” machadiano e a elipse pós-moderna da linguagem telegráfica de um Rubem Fonseca e a afasia dissonante de um Dalton Trevisan, Hélio Pólvora aponta para uma terceira margem, ao acreditar, ainda hoje, na palavra, mais que na luta do leitor contra o hermetismo e a excessiva economia dos tempos magros para o contador de história. Há uma terceira via, a mesma pela qual transita a Lygia Fagundes Telles contista, e mais recentemente Ronaldo Correia de Brito. A palavra ainda se mantém capaz de uma linguagem alegórica à maneira de um Xavier de Maistre, que não enfada mesmo dando voltas, com a palavra, ao redor do próprio quarto. Tudo se “limita” ao savoir-faire. Porque além da técnica narrativa do autor baiano, seu rico vocabulário, sem cair em linguística barata, é de um colorido comparado ao de Monteiro Lobato e Raul Pompéia, ou às traduções de José Geraldo Vieira, que fazia com que todo livro traduzido tivesse um sabor temperadíssimo e engrandecesse a figura do verdadeiro autor. Ou ainda à poesia de seu conterrâneo, Sosígenes Costa, simbolista maior, com sua famosa série de sonetos pavônicos.

Os contos de Hélio Pólvora estão entre o conto que se conta e a novela. Num ponto equidistante. Porque não se submete aos rigores do conto de manual e tampouco à flexibilidade comprometedora que faz da novela e do romance um gênero passivo, de uma cultura extensiva. Hélio não é contista de Teoria do Conto. Não reescreve o que aprendeu em livros de teoria ou manuais. Desse modo é que seus contos não são “armados”, não seguem à risca a teoria do conto. A teoria vem sempre depois da experiência. A filosofia da composição, de Poe, foi escrita depois da publicação de suas “Histórias Extraordinárias”. E não é de fato honesta: traduz mais o ideal que a realidade da obra do grande contista norte-americano. É uma teoria da teoria.

Há homens de palavra. Outros, nem tanto. Há contistas que não inspiram confiança – porque não são transparentes em suas intenções ou porque não são fieis nem a si mesmos. Elogiado por nomes como José Candido de Carvalho (“Sem alarde e sem cornetas, vai esse mestre do conto brasileiro cultivando, com mão paciente e perita, sua bem cuidada lavoura”), Lygia Fagundes Telles (“Essa sensibilidade vidente aliada a uma rica experiência artesanal, imaginação cintilante e linguagem de renovação poderosa, singular, colocam Hélio Pólvora na primeira linha dos grandes contistas brasileiros”) e Antonio Hohlfeldt (“Extraordinário contista, que nos faz esquecer absolutamente o crítico para desafiar-nos com sua fantasia absoluta no universo da ficção pura”), dentre tantos outros, Pólvora nos devolve a crença na infância do livro, por meio do conto, o gênero em que há e sempre houve mais fantasia. Devolve-nos, portanto, a crença na vitalidade da leitura e na longevidade do texto bem escrito.  
Eu acredito na ficção. De Hélio Pólvora, desde o primeiro livro lido. Eu acredito em suas palavras. E a Global Editora repõe ao mercado os contos do autor que dão fé.

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