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Entre nós
Uma comédia sobre a diversidade
O novo trabalho do criativo e jovem – muito jovem – diretor de teatro baiano João Sanches é, antes de qualquer outro julgamento ou de qualquer outra afirmação, um programa eminentemente divertido. Tenho simpatia pelo trabalho dele. Gosto da vitalidade e do timing de seus espetáculos. É algo como o cinema de Jorge Furtado: tem por princípio o entretenimento, mas vai sempre além, nas entrelinhas. E isso é de uma sabedoria invulgar. Acho mais inteligente quem consegue entreter do que quem consegue chatear com papo-cabeça. De modo que acho mais difícil escrever um romance blockbuster do que escrever um roman noveau, com aquele descritivismo insuportável e pretensamente científico, mas ainda mais pretensamente criador de uma escola ou movimento. Não há nada mais fácil – e inútil – que escrever um texto mais ou menos profundo e filosófico, mas sem fluidez, sem aquela inteligência saborosa do corpo, enquanto apenas a mente do criador se diverte com as sinapses ludibriadas por elas mesmas. Há um bom exemplo aqui na Bahia: o diretor Gil Vicente Tavares costuma polemizar sobre assuntos sérios etc., mas quando se trata de mostrar serviço, é tudo tão superficial, tão pobre, tão senso comum – mas sempre com a pretensão de ser profundo e até mesmo erudito.
Entre nós – uma comédia sobre diversidade conta e é contada, ao mesmo tempo. Os atores são, portanto, narradores também. O formato não me agradou muito, ou talvez a execução dele. Beirou o teatro que todos nós um dia fizemos no colegial. Além do mais, fiquei pensando: qual a necessidade desses atores fazerem essa peça na hora, diante do público? A peça não se justifica, ao não dar uma resposta a essa questão. Percebe-se facilmente que o “fazer na hora” é o grande gancho para dar ritmo acelerado ao espetáculo, e é desse ritmo que saem os melhores momentos. Mas, a despeito da carência de lógica para o formato proposto por quem assina a direção, o figurino e a iluminação da peça, somos imediatamente tomados pela simpatia e carisma dos atores – sobretudo Igor Epifânio, que quase me matou de rir em “Pague pra ver”, com direção do João Sanches também; e me fez levá-lo realmente a sério, ao atuar ao lado de mestre Gideon Rosa, em peça com o elegante texto do sul-africano Athol Fugard, “Mestre Haroldo... e os meninos” – e pela história envolvente, ainda que pueril, mas talvez envolvente porque pueril, também, por mexer com algo adormecido em nós, o prazer genuíno, sem cosmogonias, procedências etc.
Dois atores – um deles vivido pelo talentoso, mas ainda verde Anderson Dy Souza, de “As velhas” – decidem criar e montar, na hora, uma peça sobre a tão falada diversidade sexual. Esbarram em várias questões, tentam evitar os clichês e a arte panfletária, até que conseguem definir, mais ou menos, uma trama. Uma trama que conta a história de Rodrigo e Fabinho, Larissa e Bruno, e demais coadjuvantes. Rodrigo está se descobrindo gay e se apaixona por Fabinho, adolescente assumidamente gay, com namorado etc. Mas há os velhos problemas: os amigos do baba, o pai machista, as garotas da escola, o medo de ser um tipo que sai por aí ouvindo a Lady Gaga, e as psicopedagogas pretensamente “cabeça aberta”, prafrentex etc. Tudo é contado e vivido pelos dois atores, com um tempo nos diálogos que nos faz pensar em Billy Wilder e suas grandes comédias com Jack Lemmon. O fundo musical, deliberadamente adolescente, com inserções que quase dialogam com os personagens-atores, agrava a tensão do humor, digamos assim, deixando a platéia numa espécie de arena romana, até chegar a hora da decisão tomada pelo rei. Que nesse caso é justamente a platéia.
A princípio parece absolutamente sem qualquer originalidade deixar a platéia decidir o final da peça – quem assistiu à “Alvoroço” terá uma convulsão epiléptica na hora do anúncio que diz que a platéia decide o final. Mas nesse caso a platéia é o termômetro para um tema muito sério e que depende, e muito, do júri popular mesmo, e não dos agentes da História. Vale ainda lembrar que o trabalho de João Sanches, de um modo geral, é fortemente influenciado pela cultura televisiva, pelos programas de auditório e sitcons, deixando clara a influência sofrida pelos artistas de sua geração. E não há melhor resultado do que a platéia ávida por tomar uma decisão, depois de rir “às bandeiras despregadas”, a peça inteira. Aliás, o espetáculo anda muito disputado, com diversas pessoas voltando, sem conseguir comprar seus ingressos.
Ainda que tente o contrário, o texto de João acaba, muito sutilmente, se tornando um tanto pedagógico, e por pouco a vaca não vai pro brejo. Há uma frase aqui, outra ali, tentando educar as pessoas, como no velho teatro socialista. Pensei em um trecho do livro “Três usos da faca”, do dramaturgo, roteirista e diretor de cinema americano, David Mamet, que assim se refere à chamada Peça de Mensagem: “Quando a escolha correta é permitida à platéia (seja através do triunfo ou fracasso enobrecedor do protagonista), seus membros podem, e irão dizer com complacência: ‘E eu já não sabia o tempo todo? Eu sabia que os homossexuais, os negros, os judeus e as mulheres são gente. E eis que minhas percepções se revelaram corretas’.
Esta é a recompensa oferecida à audiência de uma peça de mensagem”.
Mamet não assistiu à peça do João. Houvesse assistido e seria mais condescendente, digamos assim, uma vez que o ritmo e a atuação de Igor Epifânio – sempre eles – resolvem todo e qualquer problema.
Meus incômodos: a voz de Leonardo Bittencourt, ao abrir a peça com uma canção sua. Talvez fosse o caso de usar playback ou convidar outra pessoa para fazer uso do microfone. Deixa o rapaz na guitarra, apenas, que fica tudo bem. A letra da canção também não é das mais inspiradas, ainda que intencionalmente adolescente. Outro incômodo: a caricatura de alguns personagens. Sim, entendi a intenção, mas ficou tão exagerado que ultrapassou os exageros da tevê. Exemplos: o colega violento de Rodrigo, a patricinha Larissa, a dona de uma Casa de Tolerância e o pai de Rodrigo. Tive a impressão de estar diante de uma história em quadrinhos de herói, em que as pernas são excessivamente arqueadas, quando o Homem-Aranha salta de um prédio para outro. Bom, mas e se o dramaturgo e diretor João Sanches pretendia exatamente isso, uma história em quadrinhos sobre o palco? Não sei.
Sei que a peça “funciona” e a platéia não pára de rir e de participar e de “jogar o jogo”. E de voltar, como eu, que a assisti duas vezes, vendo outros repetentes por lá.
P.S.: em cartaz no Teatro Gamboa Nova, de quinta a domingo, às 20 horas.
18/1/2012 17:14:41 - Melhor coisa... Melhor coisa foi o comentário de HW acima sobre GVT. Ô cara chato. A peça é bem para adolescente mesmo, mas o formato acaba agradando a todos. Postado por:Ana Carla
18/1/2012 19:08:05 - Não gostei Achei fraca, a peça. Parece teatro-escola. E achei tudo exagerado. Postado por:Nunes
19/1/2012 09:55:19 - Eu sei a resposta Por que o autor da resenha tem sempre de citar o título de um livro ou um autor mais ou menos desconhecido? Postado por:Chato
19/1/2012 10:32:06 - Rodriguinho e Fabinho A peça é muito fraquinha. Parece Malhação gay. Que coisa mais adolescente, meu Deus! Tirando uma ou outra piada, não sobra nada! E o que dizer da "trilha sonora"? Aquele cara desafina feio na abertura! Gostei apenas dos atores, os dois. Muito bons. Mas a peça é bogagem só. Para adolescente gay. Para o Rodriguiho e o Fabinho assistirem. Postado por:Rodrigo Pontual
19/1/2012 23:49:53 - Gil Se Sente: o chato por unanimidade Adorei o trecho sobre Gil Se Sente!!!!!!!!!! É quase uma unanimidade: todos ou quase todos acham esse cara um chato, metido a cocô com açúcar, afetadíssimo e com uma vontade louca de ser o Chico Buarque ou o Kurt Weill... Pobre coitado, não sabe escrever nem uma redação colegial, e vive usando as pessoas como pedestal para a usa magra carreira, à sombra do pai. Outro canalh, registre-se. Postado por:Jorge Filgueiras
20/1/2012 08:50:29 - A qualidade caiu Achei que o diretor caiu muito, de Pague pra ver para Entre nós. Na primeira havia muito mais criatividade, invenção, diversidade (pois é!) e um texto muito rico. Em Entre nós tudo é muito previsível e linear, e o beijo no final é apenas mais uma piada - previsível - sem muita graça e sem qualquer "conclusão" de um trabalho, exatamente. Mas continuo gostando de João Sanches. Postado por:Tude
20/1/2012 09:35:19 - A gente somos inútil Eita artigo de utilidade pública. Postado por:Fofo
20/1/2012 18:51:31 - Que horror! Aqui se fala mal até de defunto! Tomara que Ildásio venha puxar a sua perna de noite na cama. Que desinutilidade pública. Postado por:Tota
21/1/2012 18:20:56 - convite: Prezado Henrique Wagner, permita-me congratulá-lo por seus textos. E desejo convidá-lo para tomarmos um café, conversando sobre teatro baiano.
Ass: Hedre Lavnzk Couto.
diretor e crítico de teatro - postando em teatrocomacaraje.blogspot.com Postado por:Hedre Lavnzk Couto
2/2/2012 20:46:11 - recomendo Bem legal a peça. Ri pra caramba. Espetáculo recomendado sobretudo para adolescentes, mas divertido para qualquer pessoa que goste de humor. Postado por:bonifácio