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O champanhe dos fracassados

Jamais vivi a ditadura dos calendários. Os homens criaram todo tipo de “folhinha”, e dentre as mais célebres estão o calendário juliano e o calendário gregoriano – ambos de origem romana. Jesus de Nazaré, o Cristo, também se tornou vítima do tempo, à mão dos homens, e mais adiante o profeta Maomé. Disso tudo resultam os shopping centers lotados, as roupas brancas andando à beira da praia, e os fogos de artifício em Copacabana, evento que esse ano foi comandado por um americano – porque onde há dinheiro, há americano judeu, ou simplesmente americano. Coco Chanel, que decidiu padronizar as mulheres, transformando-as todas em homens, com seus cortes retangulares – ver o tailleur –, é igualmente produto do judaísmo e seus planos de dominar o mundo, de uma forma, está se vendo, mais eficaz que as trapalhadas de Pink e o Cérebro – lembremos que o criador desse desenho animado é um dos mais ricos americanos judeus da história do cinema, Steven Spielberg. Uma projeção?

Nunca me senti obrigado a ser feliz no sábado à noite. Posso ficar em casa assistindo justamente a Os embalos de sábado à noite: é mais barato, mais confortável, menos cansativo e, sobretudo, voluntarioso. Minha desobediência civil. Mas devo lembrar que não se trata de oposição gratuita, vontade de ser casmurro, de ser do contra, uma espécie de Henry L. Mencken: eu realmente não me interesso pela felicidade canonizada ou oficial e obrigatória, feito alistamento militar. Além disso, a cidade ferve no sábado à noite, as pessoas exalam uma urgência sexista e é quase possível sentir o cheiro de seus hálitos noturnos e até mesmo o cheiro de suas genitálias. Porque à noite a felicidade urbana é sempre física, mundana.

Eu me interesso por Astronomia e gosto de pensar no movimento sistemático dos astros, o apogeu e o perigeu, por exemplo. Mas me interessa a natureza primitiva,  não-espúria, e não a manipulação dos homens sobre a liberdade de ir e vir do sol, em seu itinerário de eterno retorno sem filosofias, de eterno retorno silencioso. Deixei de me ocupar com o Grande Debate, a singularidade, a anti-matéria, a cosmogonia e os elos perdidos. Tornei-me uma criança autista: o passado é aquilo que minha mão alcança; o futuro, aquilo que minha vista diminui.

Assim é que me sinto bastante confortável em dizer que não espero nada de 2010. Não há pessimismo nisso, pelo contrário, e tampouco desejo exibir uma postura zen de quem vive o aqui e agora – eu não sou zen. O que há é uma vida toda por uma, ou feita de ciclos muito pessoais e subjetivos, que se mostram absolutamente indiferentes aos calendários do homem civilizado. E há que lembrar que o ano novo não passa de uns três meses, no máximo. Logo em seguida vira mais um ano velho, que pode ser o ano de 1982 ou o de 2003.

O leitor deve estar pensando, a essa altura, que sou um vagabundo ou um cínico – do grego kynós, ou seja, cão –, da escola filosófica de Diógenes. É quase isso, mas devo dizer que esse delicioso ócio, tão comum na vida dos cães e dos mendigos, foi conquistado pela renúncia a uma “vida de sucesso”. Eu decidi ser um fracassado, e isso me torna um homem de sucesso, sem dúvida, porque livre e relaxado, talvez mais que os demais... Ser extraordinário é mais ou menos fácil. Ser ordinário é absurdamente difícil, é uma negação ao darwinismo do século XXI, o darwinismo das mídias, das passarelas e dos banheiros filmados.

Esse estado, auto-suficiente, temporal, me deixa tranqüilo, por exemplo, em relação aos abusos de nosso presidente da república. Eu não espero que a corrupção termine e tampouco que o Diogo Mainardi finalmente desista de fazer o tipo Paulo Francis, detestado para ser cada vez mais lido. Já aceitei a campanha de moda íntima, primavera/verão, lançada pelo presidente analfabeto, ladrão e cínico – agora sem etimologia grega, que Lula só merece o senso comum – , que nos mostra cueca e meia em “cadeia” nacional – coitado do cineasta Fábio Barreto: foi se meter com Lula e parou na UTI. Não se trata de embotamento ou mesmo desesperança de minha parte: falta-me curiosidade, e não há como ser curioso depois de tanto tempo de novelas com a mesma história, em que há sempre um filho bastardo e a vilã fica louca no final. O que é que eu posso fazer em meio à peste na Idade Média? Séculos depois, quando os sobreviventes já haviam morrido, a epidemia passou... E além de morar no Brasil, moro na Bahia. Pois bem, prefiro morrer de frio na Suécia a morrer de calor humano por aqui, onde as pessoas se espalham a partir do som altíssimo que sai de seus carros, são invasivas, inconvenientes, carentes demais e mal-educadas. Aqui as pessoas estão sempre multiplicadas. Mas prefiro, apenas: não espero morar na Suécia. Quando sinto calor e quero virar apenas um capote anônimo, para citar Macedônio Fernandez, entro nalgum cinema, numa sala do Espaço Unibanco, a Sibéria de Dostoievski.

Um fracassado conformado, consciente, lê dos Upanishads à Literatura Noir sem qualquer tipo de ansiedade e tensão por conta do desejo de fazer bom uso, publicamente, dessas leituras – Borges assinala, já com idade avançada, em certa altura de seu Ensaio Autobiográfico*, em edição recente da Companhia das Letras, que “(...) estudar, e não a vaidade de dominar, tem sido meu principal objetivo; e nos últimos doze anos não me senti frustrado”. Lendo Karen Horney e seu interessantíssimo Self-analysis, ou ainda os romances de Amós Oz, e, sem sofrer com a Faixa de Gaza, de repente ler os ensaios de Edward Said e a poesia sufi de Ibn’ Arabi, os poetas persas e Herta Müller – enfadonha!... –, a mais recente vencedora do prêmio Nobel de Literatura; enfim, relendo Orides Fontela sempre, e Bruno Tolentino, posso me dar ao luxo de nada guardar para, meses depois, ler tudo de novo com o mesmo entusiasmo, a mesma surpresa pueril.

O mundo vai mal, revolução é uma palavra que, até o momento, só elevou ditadores, às custas de falecidos militantes políticos; e a palavra “mudança” me causa arrepio, porque, mesmo que digam o contrário, ainda é possível piorar. A diarréia de Bauman, sociólogo da moda, polonês, para quem tudo é líquido, e que possibilitou que leitores desistentes de Adorno e Hegel, ou seja, os desertores desses filósofos, pudessem, finalmente, ler Filosofia, não me ocorre senão quando penso em palavras odiosas como “moderno”, “contemporâneo”, “vanguarda”. Sou conservador, e conservo em mim o gosto pelos clássicos e pela tevê desligada, de preferência na casa dos outros. Bauman, considerado o profeta da pós-modernidade – tenho horror a todo tipo de pós: sou alérgico – virou ele também um senhor produto, o primeiro “filósofo” best-seller do mundo, estando vivo, e falando tudo o que todo mundo já sabe, apenas mais elaborado porque escrito em casa. O mundo vai mal dentro e fora.

E se o mundo vai mal, é porque todos querem um lugar ao sol. Está certo que o sol é uma estrela enorme, mas, queira ou não, é de quinta grandeza. O sol é de quinta – não dá para todo mundo.

A vantagem de ser um fracassado é poder comer o mais caro prato da culinária francesa sem tirar um tostão do bolso: o melhor amigo paga, e não há mal-estar algum nisso, o sujeito é um fracassado assumido e de bem com a vida. Em 2010 ele descobre novamente que é um fracassado feliz, mesmo sem ter pedido nada ou feito promessas – e nem mesmo tomado Prozac. Aproveito para citar o belíssimo e famoso poema de Quasímodo (Salvatore), grande poeta italiano, morto em 1968. Ele me dá a vez:

Ed e’subito sera

Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di sole:
ed è subito sera

Uma hora o champanhe acaba, porque não há champanhe que dure o ano inteiro.

*Jorge Luis Borges, Ensaio Autobiográfico, Companhia das Letras, 2009.

6/1/2010 17:20:16 - Ces´t la vie...
Sobre Chanel e judaísmo, ela não apoiou os nazistas? E + sibéria - e fracassado - & underground - que o espaço unibanco é a sala Walter... Assistir um filme ali de camiseta e short é quase uma pena na velha sibéria... E entendo o que vc quer dizer, apenas viver, como o respirar é natural... Fracassado sim, ordinário...talvez não... Tem que ser natural, nessa vida, nem + parto forçado de fórceps será aceito... ps.: GRANDE POEMA...não conhecia...engraçado ser um poema pequeno...aqui pequenos poemas são de pequenos poetas, assim dizem os grandesda cidade...
Postado por: Rodrigo Sputter
6/1/2010 22:14:27 - Algumas notas
Meu velho Rodrigo, vc está certo quanto à estilista francesa que, de fato, colaborou, segundo os pesquisadores, com o Nazismo. Mas é preciso lembrar que Hitler era judeu... Ou seja, meu pensamento, ao escrever o aritgo, girava em tonro de algo menos específico. Quis dizer que toda essa decadência cultural vem de determinados valores judaicos, e ainda que ela não fosse judia, quem não sofreu influência da cultura judaico-cristã no Ocidentes? Bem, e quanto a ser ordinário, usei tal palavara diretamente ligada a seu antônimo, "Extra-ordinário", ou seja, aquilo que não é comum, ou do dia a dia... A palavra "ordinário" tomou emprestado um conceito bem pejorativo. Eu não pensei nesse conceito, do senso comum, ao escrever o texto presente. Abraço. H.
Postado por: Henrique Wagner
6/1/2010 23:02:23 - show
6/1/2010 22:57:16 - show HENRIQUE... você é show! o teatro na Bahia precisa de discussão, mesmo! mas pq insistem em lhe calar? você sabe o que fala e é lindo ler vc! respeitar o modo de ver alheio é importante... só não consigo entender o tamanho da falta de inteligência de alguns que forçam nas palavras paixão pela arte cênica(pura falácia), mesmo que esta seja usada de forma "emburrecedora" e meramente mercadológica!realmente, só o saramago pra explicar em seu ensaio. os comentaristas deste site misturam as coisas... me respondam:vcs estão sempre esperando a próxima do HENRIQUE, né? o nome dele é HENRIQUE WAGNER e é igual a: TEM QUE TER MUITA CORAGEM, COMPETÊNCIA E INTELIGÊNCIA para escrever o que ele escreve. PARABÉNS, HENRIQUE!SEU NOME É BEM DITO, BENDITO! Postado por: tanto
Postado por: tanto
2/2/2010 00:23:34 - E digo mais..
2010 será mais um ano que enganará os já desfalecidos corações brasileiros: é copa do mundo! Sei lá, me sinto estrangeiro nessa terra, e entra ano e sai ano e eu me sinto no mesmo lugar. Adorei lê-lo e perceber que não estou tão só (embora quisesse) neste mundo. E como diz Nietzsche "esperava ecos e recebi somente elogios", para não cometer este erro, estou divulgando o texto... Abraços, Henrique.
Postado por: Wagner Martins

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